“Cantânia" — de que vozes se faz um coro?

De que vozes se faz um coro? Há projetos de que nos esquecemos mal acaba o ano letivo. E depois há o Cantânia. O Cantânia fica. Fica porque não é apenas um espetáculo, nem apenas música, ou canto… nem apenas escola. É uma espécie de milagre organizado: dezenas de crianças a cantar em conjunto, com uma alegria tão séria que desarma qualquer adulto mais cético.

Os alunos da Escola do Salgueiral (SAL5), acompanhados pelas professoras Raquel Ramos e Armanda Torrinha, e da Escola D. Afonso Henriques (6.º B), com a orientação da professora de Educação Musical, Ana Cláudia Oliveira, em articulação com as professoras Marta Melo e Maria José Guimarães, viveram este ano letivo essa experiência rara ao participarem no Cantânia 2026/Projeto REAL. O projeto nasceu em Barcelona, pelas mãos do L’Auditori, e tornou-se uma referência internacional de canto participativo, envolvendo milhares de crianças em vários países. Em Portugal, é desenvolvido pela Sociedade Musical de Guimarães / Conservatório de Guimarães, com o apoio do Município, que continua a apostar na ideia revolucionária de que a música pode fazer crescer pessoas inteiras.

E faz.

Ao longo do ano letivo, os alunos construíram adereços para o espetáculo final, ensaiaram canções, decoraram letras, aprenderam entradas, silêncios e respirações. Descobriram também uma coisa extraordinária: para um coro funcionar, ninguém pode querer cantar mais alto do que os outros. O que é uma belíssima metáfora para a vida.

Ainda durante o mês de fevereiro, estes alunos participaram num ensaio orientado pelo maestro Oriol. E há qualquer coisa de profundamente comovente em ver crianças a seguir um maestro: aquele instante em que percebem que um simples gesto da mão consegue pôr ordem no caos e transformar vozes dispersas numa só. É quase magia, mas da boa — daquela que exige trabalho, atenção e repetição. Muita repetição.


O tema deste ano, Projeto REAL, desafiou os participantes a refletirem sobre identidade, emoções, relações humanas e a forma como cada pessoa ocupa o seu lugar no mundo. Tudo isto através da música, que continua a ser uma das poucas linguagens capazes de unir sem precisar de tradução.


E depois chegou o dia 2 de maio.

No Grande Auditório Francisca Abreu, do Centro Cultural Vila Flor, aconteceu aquilo que acontece sempre nestes momentos: os pais e alguns avós emocionaram-se ao segundo acorde, e os alunos — que durante meses acharam que os ensaios nunca mais acabavam — perceberam finalmente que estavam a fazer parte de algo maior do que uma simples apresentação escolar.


O espetáculo ganhou vida perante uma sala cheia e atenta. Houve nervosismo, claro. Houve olhares rápidos à procura de segurança. Houve sorrisos inesperados. Mas, sobretudo, houve música. Música feita em conjunto, que é talvez a forma mais bonita de lembrar às crianças — e aos adultos também — que ninguém canta verdadeiramente sozinho.


Nota: Algumas das imagens foram amavelmente cedidas pela Sociedade Musical de Guimarães


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