Centauros e Anjos: performance na Sociedade Martins Sarmento (Bienal Cultura Educação #2)
Os
centauros aprendem a estacionar as patas antes de falar e a usar as asas que
ainda não sabem que têm. Metade impulso, metade reflexão — ou, em dias mais
difíceis, metade cavalo, metade telemóvel.
E depois há os anjos. Não os celestiais de vitral e incenso, mas os que tropeçam nas próprias auréolas. Anjos com asas amolgadas do recreio, especialistas em voos rasantes sobre a insegurança. No “palco”, descobrem que voar não é fugir do chão — é negociar com ele. Entre cascos e penas, o ensaio começa quase sempre no caos. Alguém perdeu o texto, outro ganhou uma coragem inesperada, e há sempre quem proponha que o inferno seja representado com luz cor-de-rosa. Editorialmente falando, defendemos essa escolha estética: o inferno é mais convincente quando tem glitter, de preferência ecológico.
O Clube de Teatro é este território híbrido onde se aprende que identidade não é jaula nem pedestal — é um ensaio contínuo, um projeto interminável de variações ao tema. Os centauros descobrem que podem ser ternos. Os anjos experimentam a desobediência. E todos percebem que a metamorfose é uma prática semanal, às quartas-feiras, das 14h30 às 16h.
Se o mundo exige definições rápidas, o palco responde com perguntas demoradas. Quem sou eu quando visto outra pele? Que asas me pertencem? Que patas me sustentam? Como é que se faz de cavalo? No fim, desmonta-se o cenário/personagem.
Mas qualquer coisa permanece: uma espécie de músculo invisível que cresce entre a imaginação e a coragem. Talvez seja isso que chamamos arte. Ou adolescência. Ou, com sorte, futuro.

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